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A importância dos nomes em um mundo cada vez mais segmentado

Nova tendência de mercado, conquista de lutas passadas ou ícone dessa geração?

Imagem: globo.com

Chame do que quiser, mas a parcela racional da sociedade tenta ser cada vez mais inclusiva. E, quanto maior é o empoderamento de pessoas que se consideravam oprimidas, maior é o surgimento de novas nomenclaturas.

Gordofobia, body positive, feminismo negro, vagina masculina, e tantas outras bandeiras com a capacidade de criar laços ao mesmo tempo que constroem barreiras. Ouvir essas vozes abafadas exige esforço e empatia. Mas, às vezes, a dedicação é tão grande que não sobra interesse para entender o real significado desses nomes.

Por que os nomes são importantes?

Eu sempre fui gorda, mas há poucos anos ouvi falar de gordofobia. Lembro de ter pensado: “é cada coisa que esse povo inventa! Aí já é demais!”. Mesmo no alto dos meus 116 kg, achava que aquilo não era sobre mim. Afinal de contas, minha gordura era um estado temporário e em breve seria modificado.

De lá pra cá, percorri minha própria jornada de autoconhecimento, dietas restritivas, transtornos alimentares e oscilações de peso. Na perturbação desse percurso, conheci pessoas que se orgulhavam de suas formas, de sua barriga e de todos os aspectos do seu corpo. Pessoas que pregavam o “fat pride” e que haviam lutado contra os efeitos de uma sociedade que estimula a “gordofobia”.

Me senti menos só. Entender a gordofobia foi entender que muito do que se passava na minha cabeça não era minha culpa, e sim fruto de uma tendência comportamental. Para fazer as pazes com o meu corpo e ser a pessoa bem resolvida que eu sempre quis ser, seria preciso passar pelo processo de sofrimento do qual sempre fugi.

Existir uma alcunha para um processo tão complexo, torna o monstro mais real e, por consequência, algo que pode ser derrotado.  Um nome legitima e minimiza a solidão da sua luta. Um nome empodera uma causa porque dá a ela mais força.

Mas não podemos nos perder na nossa individualidade. O mundo é plural e outras pessoas podem não estar tão evoluídas na discussão.

O que é mais importante que os nomes?

Existe um lugar de dor em toda militância. Com exceção de alguns nobres espíritos, dificilmente alguém luta por uma causa se não está intimamente ligado a ela. Se eu luto contra a gordofobia, é porque eu já sofri com a gordofobia. E o mesmo acontece com o racismo, machismo, homofobia, e por aí vai.

Dessa dor é muito comum nascer uma revolta. Uma necessidade de descontar a opressão, de fazer da sua causa a nova política dominante. Não incentivo esse tipo de comportamento, mas também não condeno. No fim do dia, somos todos humanos tentando sobreviver.

O problema da revolta é que ela é cega e não vê boas intenções, apenas fatos frios desconectados de contexto. Acredito que, para nos fortalecermos dentro da luta por um mundo menos preconceituoso, é preciso nos apegar às pequenas vitórias. São elas que, aos poucos, vão multiplicando pensamentos positivos e desconstruindo fracos padrões.

Portanto, se a sua avó fala que aquele seu primo frutinha tem um namorado muito educado, não se apegue à homofobia do termo e nem se precipite a condenar a comportamento fascista da senhora. Tente exercitar toda a resistência que seus anos na opressão lhe renderam. Você conhece sua avó, então já sabe se ela é essencialmente uma pessoa boa ou ruim. Leve isso em consideração e tente valorizar a intenção dela de encontrar algo de positivo em uma união que pode fugir de sua compreensão.  Isso vai criar um canal de diálogo para, no futuro, desconstruir até o “frutinha”.

Mantenha abertas as portas do diálogo. Só assim você pode contribuir com os outros e o melhor: se transformar pelo efeito que as pessoas podem ter em você.

Lorena Otero

(Leitora Garotas FDP)

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