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A DESUMANIZAÇÃO DO GORDO NA MÍDIA

Todos os dias somos bombardeados com notícias como: “Obesidade pode aumentar casos de diabetes e pressão alta”, “Obesidade e diabetes: epidemias silenciosas”, “Os números da obesidade e o que fazer para conter essa epidemia …”.  Em nossas redes sociais, milhares de antes e depois da dieta, dicas de nutricionistas famosos de como ter uma barriga negativa e vídeos de como se exercitar usando apenas um cabo de vassoura. Sem contar as musas fitness e seus milhões de seguidores. Definitivamente, a gordura virou a grande vilã da atualidade.

Não estou aqui para discutir questões de saúde. Isso deixo para os especialistas e para a OMS. Mas precisamos falar sobre como a imprensa retrata o gordo e reforça padrões negativos.

Vamos começar pelas incontáveis matérias que trazem como ilustração gordos não identificados. São imagens cortadas – as chamadas headless fatty, de pessoas obesas, vestindo roupas desleixadas. Gordo não tem cara e muito menos vaidade. A alegação é sempre a mesma: é uma forma de preservar a identidade da pessoa retratada. Acontece que, ao fazer isso, a imprensa não protege o gordo, mas sim, o desumaniza.

Recentemente, uma das maiores militantes contra a gordofobia no país, Flávia Durante, publicou em seu blog  uma lista de banco de imagens de pessoas gordas, fazendo atividades praticadas por qualquer pessoa: pegar um táxi, trabalhar, fazer exercício (pasmem: gordos também se exercitam!).

“Pessoas gordas são mais do que seu tamanho. Elas não precisam estar só em especiais de moda plus size ou em matérias sobre preconceito, distúrbios alimentares e culpa na alimentação. Podemos ser personagens e protagonistas também de artigos e campanhas de maquiagem, bancos, carros, esportes, maternidade, tecnologia, música, sabão em pó, até de manteiga… E, não se esqueçam, elas têm cabeça, profissão e nome!”

(Flávia Durante)

Outra situação que vem incomodando bastante são as notícias com títulos esdrúxulos, como as abaixo:

Ou seja: pouco importa o estado de saúde física ou emocional dos envolvidos. O importante é que eles estejam mais magros, pois isso sim é sinônimo de saúde e felicidade.

Anorexia, bulimia e transtornos alimentares diversos parecem não render uma boa pauta. Acontece que, ao reforçar o estereótipo de que a obesidade é um fator tão ruim a ponto de querermos esconder o rosto de uma pessoa gorda e enaltecer um emagrecimento a qualquer custo é o que a imprensa e a publicidade causam.

Nos deparamos, todos os dias, com milhares de pessoas insatisfeitas com o próprio corpo – cerca de 92% das mulheres dizem que gostariam de mudar algo nelas mesmas. E por quê? Por conta de notícias e campanhas publicitárias que enchem nossas telas todos os dias com corpos sarados e perfeitos e gordos infelizes à margem da sociedade.

Estamos vivendo um boom de campanhas com pessoas reais ultimamente – e já não era sem tempo! Mas se não tomarmos cuidado com o que a imprensa e a publicidade divulgam como padrão de beleza e felicidade, serão apenas campanhas fofas cujo maior feito é gerar compartilhamento no Facebook, com zero mudanças sociais.

Mariana Cyrne