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Teve gordo e gorda na passarela do SPFW. Mas a gente quer mais!

A semana começou em polvorosa: nos deparamos, enfim, com diversidade na 42ª  edição do São Paulo Fashion Week. A estreia da marca LAB, empreitada do cantor Emicida, foi emocionante e contou com um casting lindamente comum, de pessoas como a gente, que consomem moda e que não se identificam com os corpos esqueléticos que geralmente figuram as semanas de moda.

Entre elas, Bia Gremion e Akeen dos Santos. Ela, manequim 60. Ele, manequim 56. Longe inclusive dos padrões pseudo-plus sizes que transitam por aí: quem está nesse meio sabe bem que as araras costumam ir, quando muito, até o 52. E os modelos plus que figuram os catálogos de marcas que se propõem a atender esse público, geralmente vestem 44.

LAB (Foto: Marcelo Salvador)

LAB (Foto: Marcelo Salvador)

Bia, que tem apenas 19 anos, voz de menina e atitudes de quem quer mudar o mundo, contou pra gente que começou a modelar por acaso, aos 17 anos, quando saiu de casa devido a problemas com os pais. Ela foi abordada pela Lollaboo em um grupo feminista no Facebook e, a partir daí, fez diversos trabalhos como modelo. Porém, nunca passou pela cabeça dela desfilar no maior evento de moda da América Latina. “Eu nunca imaginei participar de um evento como o SPFW, um evento de pessoas majoritariamente – e às vezes doentiamente – magras. Foi um marco na minha história, na minha carreira e, com certeza, na história das pessoas gordas e da moda também”.

Para Akeen não foi diferente. Ele, que começou a modelar depois de ser convidado pela Renata Poskus para o casting do Fashion Weekend Plus Size no ano passado, sempre foi apaixonado pela moda e fazia looks do dia no Instagram. Mas a passarela do SPFW era algo distante demais. “Pra gente que é gordo, já é difícil se imaginar na moda. Imagina em um evento desse porte! Ser pioneiro como único modelo plus masculino, que veste mais de 50, a desfilar no São Paulo Fashion Week é um sonho maior ainda!”

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Apesar da grande exposição, Bia diz que ainda tem dificuldades em encontrar roupas para ela. “Faziam quatro anos que eu não tinha uma calça jeans, por simplesmente não encontrar um modelo que caiba. E mesmo assim, não existe muita opção legal. Eu sinto falta de moda realmente. Eu gosto de me vestir bem, de me expressar através das minhas roupas. Realmente sinto falta de moda-conceito para pessoas gordas, roupas estruturadas, acinturadas. Chega de malhas e de roupas sem caimento!”

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Akeen comenta ainda sobre o papel social que vai além da moda. Ele recebe mensagens diariamente de adolescentes que, como ele, sofreram bullying e pressão social para emagrecer, agradecendo pelo exemplo de aceitação. “Na minha época de adolescente era mais difícil ainda, pois não existia alguém que me representasse no meio da moda, da música, da arte como um todo. É incrível ser esse exemplo hoje em dia, para que pessoas comuns, gordas, negras, tenham em quem se inspirar. A representatividade faz com que as pessoas não caiam em depressão, como eu caí”.

Foto por Lívia Nonato

Foto por Lívia Nonato

Quando perguntada sobre o que a Bia de hoje diria para a Bia que nunca tinha pensado em ser modelo, ela sorri tímida: “Eu falaria para ela que a pior coisa que ela achava que era é o melhor adjetivo que ela tem. Que ela ainda vai chegar muito longe sendo a gorda dos amigos, a gorda da família, a gorda do rolê. E ela vai ser muito feliz!”

Foi lindo. E é apenas o começo da mudança.
A gente quer mais é que isso vire rotina, e não evento.

Se você ainda não assistiu ao desfile da LAB, ele está disponível na íntegra aqui.